Introdução
Para Ankh-es-em-Amun, a irmã de meu coração.

       Quão longos foram os séculos, o milênio que eu gastei na escuridão sem a luz de seu sorriso. Quão amargas foram as lágrimas que eu derramei, suficientes para encher um lago cem vezes maior que aquele que Amenhotep construiu pelo amor de Tiye. Quão esfarrapada têm sido a minha existência, que me força a viver vezes a fio nesse mundo decadente, para sempre negando a presença de minha irmã, minha vida, meu amor, minha alma.
        Foi apenas na minha última morte que eu aprendi certas coisas que me levaram a escrever esta carta por elas então, enquanto meu ba caminhava entre incontáveis almas de bárbaros, eu aprendi sobre alguém que buscou o caminho para Amenti, cujo nome era Ankh-es-em-Amun. Embora pese em meu coração rezar para pedir tal coisa, contudo eu ainda ouso esperar que você more lá, e que não passará para as abençoadas de Aaru até que esta minha pobre missiva puder te localizar. Aquele que a leva foi bem pago, contudo eu peço a você, como você uma vez olhou por mim com favor, que o recompense novamente, e se lhe agradar a idéia de me escrever algumas linhas depois destes muitos séculos, ele saberá onde traze-las para mim.
 Eu escrevo isto para que você saiba o que restou de mim, e porque tantas épocas se passaram, e em cada uma delas eu tenho falhado em cumprir minha promessa de me juntar a você aos pés de Osíris. E eu espero que, uma vez conhecendo, você possa entender, e entendendo, você possa perdoar.
        Aquilo que estiver escrito nesta carta é o conhecimento que eu pude adquirir considerando a mim mesmo e aqueles parecidos comigo. Este é um trabalho pobre para mostrar todas aquelas vidas, mas nós somos uma raça enigmática e reservada, e mantemos nosso conhecimento para nós mesmos. E mais para frente, como você deverá perceber, meus esforços foram impedidos por meu status de paria sim, meu amor, mesmo agora a face de Hórus está virada para mim, e eu estou marcado com o nome de Ishmael, que foi o primeiro a nos abandonar.
 Pelo crime de nosso amor, depois que você seguiu em frente, me foi negado para sempre a visão abençoada de Aaru. Minha punição tem sido viver vezes a fio através da eternidade, através de incontáveis vidas e estar sempre separado da irmã de minha vida.
         Naquele momento, isto foi colocado a mim de forma diferente, embora eu não esteja enganado. De fato, eles disseram para mim que isto era uma honra, e que eu não estava sendo merecedor dela desde que eu corrompi a sacerdotisa. Porém, eles disseram, o próprio Hórus havia me escolhido, e a luta dos Shemsu-Heru, os Filhos de Hórus, estavam precisando de minha força e de meu Hekau contra as vis tropas de Set e Apep.
         Mas eu não poderia ter nada disto. Ainda que possa ter sido um pecado repudiar minha submissão a Hórus, eu não poderia seguir alguém que fosse tão severo na punição de me aprisionar eternamente entre os vivos, e negar para sempre a visão e a companhia de meus amados. Certamente sua abençoada mãe, sua sacerdotisa, que prejudicamos por seu amor, não teria sido tão cruel, por tudo aquilo que ela trouxe dos ensinamentos dos rituais de Thoth pelos quais eu fui condenado a este interminável desespero.
        Seja como for, eu não poderia mais seguir Hórus, e estava brandindo o nome de Ishmael depois da primeira múmia que deixou a sua ocupação. Por isso eu sou o que sou uma múmia, vivendo por um tempo, então morrendo, então Renascendo, como o maior de minha espécie poderia fazer.
        Os filhos de Hórus não são a totalidade do Renascimento, ainda que eles acreditem que nós acreditamos que eles são. Todos nós recebemos de boa vontade ou não o Rito do Renascimento, como foi feita pela mão poderosa de Ísis vindo dos ensinamentos de Thoth: e é dito que, nenhum de nós, pode passar por esse mundo exceto por um curto período de tempo, enquanto o ba vaga no exterior e recupera o seu poder.
         Em minhas várias mortes eu tenho procurado sem fim por alguma notícia tua. Eu tenho vagado através das pavorosas terras de Neter-khertet, e vendo ela infestada de bárbaros através dos séculos. Eu contemplei os palácios de Amenti, e caminhei nas salas que já foram caminhadas pelo próprio Osíris agora um pouco melhores que as esmigalhadas ruínas de Mênfis, cuja noite nós uma vez compartilhamos. Eu naveguei com Anúbis porque ele parece me tolerar da mesma forma que os seguidores de Hórus, se não melhor na terrível Tempestade que cerca cada um de nós.
         Eu escutei Anúbis falar de Aaru, onde o espírito pode encontrar a paz, e eu vi até mesmo seus muros à distância, através da grande tempestade. Mas eu não vou deixar ele me levar até lá, porque é dito que qualquer um que entre nos jardins de Aaru nunca poderá deixa-los e retornar ao mundo das sombras mortas e eu não quero entrar, por medo de não te encontrar lá.
         Mas agora, eu tenho esperanças e se esta desprezível súplica puder ao menos achar seu caminho até você, e se o seu coração não estiver furioso comigo porque eu não fui até você em todos esses séculos, como eu jurei pela minha vida fazer então me deixe ir até você, onde quer que você esteja, e vamos fazer a jornada para Aaru juntos.
         Esses escritos que eu te enviei com este argumento do meu coração, eu coletei a princípio para que eu pudesse entender a minha condição, e a entendendo, tanto aprender uma forma de superar isto ou, pelo menos, aprender a usar suas vantagens ímpares para me ajudar em minha busca por você. Eu tenho mantido esses escritos sempre comigo, junto com meu diário que felizmente eu tenho mantido na velha língua desde os tempos de minha primeira morte.
        Estas coisas me ajudam a lembrar por causa das numerosas vidas, mortes e renascimentos a memória pode se tornar confusa, e as mais valiosas lembranças de séculos passados podem desfalecer como a substância dos sonhos quando eles são dispersos pelo sorriso matinal de Ra. Eu tenho visto aqueles de minha espécie que não mais se lembram de seus próprios nomes, e isto é algo terrível.
         Ainda que o esquecimento seja uma maldição, a lembrança raramente é uma benção. Ser, e fazer, e ver, e saber, e amar tantas coisas, pessoas, lugares derrubados através de muitas vidas, e ver cada um se desintegrar, envelhecer, definhar e morrer, perdido para sempre isto desgasta o espírito de uma forma que é dificilmente é compreensível para alguém que tenha vivido apenas uma única vida. O desespero leva alguns até o desejo pela morte, e novamente isto lhes é negado. Apenas a loucura oferece alguma escapatória.
          E foi você, Ankh-es-en-Amun, Vida do Sol, alegria do meu coração, que me livrou da loucura durante estes muitos séculos. O pensamento de que eu deveria te encontrar novamente, de alguma forma, e de que nós deveríamos por fim estarmos reunidos em Aaru. Eu tenho carregado isto comigo de vida em vida. Sabendo que eu te amo e buscando por você, eu sei que eu sou Kharis, e não se esqueça: torça para que eu ainda possa encontrar você. Eu me agarro no prospecto da alegria, não se desespere.
         Leia. Eu lhe suplico, os escritos que te envio, e deixe seu coração me julgar pelo que eu me tornei. Ó coração de meu coração, eu não tenho sido infiel, nem mesmo em uma batida do meu coração desde que nós fomos separados. Mande-me uma carta, e diga-me onde você está, e seu Kharis irá até você.
         Então, eu juro pela minha vida, coração e nome de que nós nunca seremos separados mesmo que a gente tenha que desafiar todos os deuses imediatamente. Os templos não foram barreira para o nosso amor, naqueles séculos passados, e se Hórus me desprezar por estar amando a irmã de meu coração mais do que eu amo sua guerra contra seu tio, então eu não me importarei com a sua desaprovação. Se ele pudesse ver a sua face uma única vez mesmo através de seu único olho ele não falharia em entender. E você, a mais bondosa, honesta e pura apesar das calúnias de sacerdotes mentirosos em Aaru você poderá encontrar isto em seu coração para implorar à sua senhora, a grande e amada Isis, para que desmanche o ritual ensinado a ela por Toth o-que-sempre-sabe, e restaure o seu Kharis para você, enquanto ele busca ser restaurado.
         Lembre-se, eu imploro por você, seu amor a Osíris, e que isto nunca a deixe através de todos os seus julgamentos, e garanta dessa forma que um pouco daquele amor que você sentia por mim ainda possa estar em seu coração.
 
                                                                                                                                                      Kharis



Retirado do suplemento Mummy,  Segunda Edição, White Wolf 1997

Traduzido por Madrox