Ao leitor moderno

        Saudações, seja você quem for e como tiver ficado de posse deste documento. Muitos anos se passaram desde que redigi pela primeira vez a maior parte do texto que está agora em suas mãos, e a querida amiga que foi a primeira a lê-lo agora me faz companhia no Mundo Inferior. Foi ela quem me convenceu a pegar a caneta mais uma vez — ou, para deixar a licença poética de lado por um momento, recorrer a um aparelho de redação, cujo delicado mecanismo elétrico é bem menos resistente à influência que um bastão sólido!
        No interím desde a última vez que escrevi, muita coisa mudou, tanto aqui em meu Mundo Inferior quanto no seu mundo; tenho podido observar a ambos durante essas mudanças e, graças à minha sabedoria e boa sorte, conseguido sobreviver.
Essas mudanças exigiram a revisão da obra que você agora tem em mãos. O original continha muitos dados que agora estão tão obsoletos que poderiam até mesmo colocar o leitor em risco. Havia também dados que descobri — da pior maneira — estarem errados ou serem meias verdades. Além disso, o esforço em escrever obrigou-me a omitir ou encurtar muitos dados que teriam sido de grande valor para minha querida Mary. Quando a máquina de escrever elétrica reduziu meus esforços de hercúleos para apenas árduos, pensei em melhorar o original, aproximando-o mais de meu objetivo inicial.
        Também acrescentei outros tópicos, sobre esperança e conforto, que ignorei ao fazer o primeiro manuscrito. Tendo sido ajudado e socorrido por essas descobertas, eu não poderia guardá-las para mim e permanecer fiel ao meu propósito. Existem coisas terríveis e apavorantes que devo esclarecer, e não as pinto mais extraordinárias do que são; rezo para que, apesar de possuir uma natureza melancólica, bastante intensificada pela minha experiência recente, faça a mesma justiça com aqueles assuntos menos esperançosos. Na obra original, eu alertava para as armadilhas do mal, mas ignorava as proteções do santuário e as trilhas da redenção.
        Também é verdade que fui mudado por minhas experiências ultra funerea. Preciso admitir ter novos motivos para estar passando meu conhecimento a outros. É meu desejo sincero que meu trabalho seja-lhe útil de alguma forma, e que, por minha vez, eu possa usufruir dos seus benefícios. Não se preocupe: com o tempo, você entenderá.
Por enquanto, convido-o humildemente a prosseguir a leitura. Todas as informações contidas neste texto foram obtidas por experiência própria, e eu adoraria ter tido conhecimento delas quando entrei nesta existência.
Perdoe-me por não me identificar. Não tenho mais nenhum desejo ou necessidade de fama literária, direitos autorais e coisas assim. Minha preocupação mais imediata é a oposição exercida por certos seres do mundo mortuum contra instruir os vivos sobre o que os espera depois da morte. Afinal, muitos habitantes deste plano, que costumam caçar as almas recém-chegadas e ignorantes, não gostariam que eu estragasse seu esporte e ganha-pão.
Que as correntes não o prendam, nem o Limbo o sufoque. Que você Transcenda.
 

Além da Mortalha

        Nos dias de minha juventude, era moda entre os intelectuais demonstrar um fascínio pela Morte. Éramos os jovens de uma era dourada: fúteis, ricos e dados a caprichos e fantasias, aos quais entregávamo-nos sem culpa. Ainda assim, éramos sempre perseguidos pelo espectro do enui. Bebidas fortes e más companhias proviam um frisson modesto; drogas como éter e ópio davam-nos um pouco mais. Contudo, nada podia manter-nos continuamente cegos quanto à futilidade de nossas vidas. O vazio cercava-nos por todos os lados; que reação seria mais natural, portanto, do que fugirmos do nosso abismo interior pela contemplação de seu pai lendário?
        Afirmo que aqui foi plantada a semente da mania chamada goticismo. A ciência e o racionalismo deixavam a alma à míngüa, enquanto o cérebro era alimentado. Ao ver todo o romance e mistério serem extirpados do universo, os homens de sangue vermelho revoltaram-se contra o mundo novo e cinzento, composto apenas por átomos e tratados científicos. Para alguns, a necrofilia espiritual que perseguíamos oferecia um santuário potencial, no qual o mistério prevaleceria, impedindo que o mundo ficasse repleto de ratos de biblioteca. Outros procuraram uma forma de serem considerados malignos, e, portanto, românticos e interessantes. Ainda outros proclamaram-se a vanguarda do Racionalismo, sondando os mistérios da Morte, que também é poderosa demais para ser reduzida a regras, processos e teoremas. É da natureza dos aventureiros perseguir sempre a fronteira mais remota.

A Jornada Para a Morte

        Devo admitir que, quando da ocasião de minha passagem, senti uma mistura deliciosa de medo e antecipação — aqueles terríveis mistérios da Morte, que por tanto tempo contemplei, estavam para se abrir para mim. Eu estava maravilhado e aterrorizado, em medidas iguais.
Contudo, esses sentimentos desapareceram quando cruzei o portal e emergi no Mundo Inferior. A sensação foi a de estar embaixo d’água: tudo era sólido e distorcido, e eu sentia uma grande dificuldade de me movimentar. Cheguei até mesmo a segurar a respiração, por medo de me afogar, até que percebi que não precisava mais respirar. Ao longe eu avistava uma radiância fria e branca, e algum instinto impelia-me a ela.
        Tudo isto descobri num instante, mas havia ainda outros segredos para serem vistos.
Formas moviam-se ao meu redor, mas eu não podia distinguir nem a elas nem às palavras que proferiam em vozes distorcidas. Eu estava indefeso como um recém-nascido. Diante daquelas criaturas que gritavam esganiçadamente enquanto me beliscavam e puxavam, minha tranqüilidade abandonou-me completamente. Meus movimentos e sentidos estavam obstruídos por alguma forma de cobertura reluzente sobre minha cabeça, que pairava, até certa distância, sobre todo meu corpo. Logo as criaturas arrancaram de mim essa proteção. Estremeci ao ver suas formas.
        Eles não eram demônios das profundezas. Eram apenas almas como a minha, que mantinham, por hábito e desígnio da natureza, uma semelhança com a aparência humana. Se essas criaturas fossem como eu as imaginava — dotadas de chifres, rabos peludos e asas de couro — seriam menos assustadoras.
Logo descobri que esses seres haviam estado à espera de minha morte, e cada um pretendia escravizar-me para seus próprios fins. O tráfico de almas não é um crime exclusivo do mundo físico, e uma alma negra como a minha tinha valor especial. O quanto aquele conhecimento teria abatido minha vaidade enquanto eu vivia! Mas agora, indefeso como eu estava, sendo tocado, empurrado e arranhado enquanto esses demônios disputavam minha alma, eu desejava ter levado uma vida pura como o cristal, porque essa seria minha única chance de fuga. Em meio àquela loucura, ocorreu-me a possibilidade de minha alma ser rasgada como uma lebre disputada por uma matilha de lobos.
        Finalmente, o mais forte prevaleceu, e fui escravizado. Durante meu cativeiro, sofri e presenciei muitas coisas terríveis, mas não pretendo contá-las aqui. Por enquanto, basta dizer que fui capaz de sobreviver à destruição e que, graças à uma combinação de força, astúcia e uma imerecida boa sorte, consegui escapar de meu feitor. No processo, aprendi muitas coisas sobre a natureza do Mundo Inferior, seus habitantes e os territórios fronteiriços. Desses, o seu mundo mortal é apenas um, e, sob muitos aspectos, o menos interessante.
Como partes desse conhecimento custaram-me alto, não poderia deixar outras almas pagarem o mesmo que eu. Contudo, tenha cuidado: meu conhecimento não é completo, e pode não estar totalmente exato. No Mundo Inferior, a verdade é tão mutável quanto qualquer outra substância.
 

Nossa Raça Infeliz

        Ser uma aparição é estar eternamente próximo daquelas coisas que amávamos em vida, porém, impedidos de desfrutar de seus prazeres. É uma tortura terrível ver diariamente os rostos de nossos entes queridos; observá-los enquanto eles enfrentam os reveses da sorte mortal; ver a idade corroer-lhes as feições e corpos; presenciar suas vitórias e derrotas — mas sempre como uma platéia invisível, freqüentadores de teatro impedidos de influir nos eventos do palco. Nunca é possível celebrar suas alegrias, nem consolá-los durante seus infortúnios. Pode-se apenas assistir, assistir, assistir. Contudo, mediante certas habilidades e muito esforço, uma aparição poderá manifestar-se física, ou quase fisicamente, no mundo material. Essas manifestações são recebidas, quase invariavelmente, com incompreensão e medo, pelo menos entre os vivos.
        O medo entre os mortos é muito diferente — na verdade, quase uma emoção completamente nova.
E o medo que assombra os mortos não é uma tortura menos terrível que esta prisão ao ar livre, que ao mesmo tempo nos oferece e nega as coisas e pessoas queridas. O medo que assombra dos mortos é eterno e imbatível, porque é o medo do Limbo, a toda-poderosa morte-em-morte. Mesmo na morte não estamos a salvo do espectro negro da não-existência. O peso deste terror pende sempre sobre nós.
A mácula maligna do Limbo está encarnada em nossos espíritos companheiros. Nós, pobres almas, caçamo-nos sem tréguas, e evitamos confiar completamente umas nas outras. A amizade, conforme é conhecida entre os vivos, oferecendo consolo pelos infortúnios da vida e compartilhando força em momentos difíceis, é praticamente impossível de ocorrer no Mundo Inferior. Cada aparição precisa cuidar de sua própria força e bem-estar, e não confiar no conforto oferecido pelos outros.
        Com o passar dos anos e das décadas, alguns de nós formam associações e alianças duradouras (chamamos esses grupos de Círculos), mas é raro haver o calor da amizade espontânea entre dois indivíduos de filosofia semelhante que ainda respirem ar. Nossas mentes sempre estão cheias de pensamentos de traição, tornando, para a alma, o medo uma prisão tão inexpugnável quanto qualquer porta de ferro.

 

A Sombra do Limbo

        O medo daquilo que está lá fora muitas vezes pode ser superado pelo medo daquilo que reside no íntimo, o que os Inquietos chamam a Sombra. No mundo dos vivos, as necessidades da carne mantêm os lados iluminado e sombrio do ser em certo equilíbrio. Eles são forçados a um pacto criado pela necessidade mútua por sustento físico e outras coisas indispensáveis da vida mortal. Mas quando uma alma é despida de sua roupa de carne e as duas metades da natureza mortal vêem-se livres das normas do corpo e da sociedade, a metade sombria pode travar uma guerra aberta contra o aspecto mais nobre do espírito.
        A Sombra encontra simpatizantes e extrai força da escuridão e da dor que a cercam. Privado da alegria e da luz, o espírito mais nobre tomba, a não ser que seja sustentado por uma personalidade extraordinária. Contudo, mesmo uma personalidade como essa pode murchar completamente, a não ser que sejam tomadas providências cuidadosas e devotadas para mantê-la. Esse estado pode ser visto entre certos tipos de loucos do mundo dos vivos. No Mundo Inferior, ele é o fardo de todos os fantasmas infelizes.
 

Plasma Imaterial

Por natureza, nós, aparições, somos insubstanciais. Ainda assim, temos existência, de modo que possuímos uma espécie de substância. Essa substância é chamada plasma, porque não pode ser descrita pelas normas científicas de matéria sólida e fluida, mas como alguma coisa intermediária, semelhante ou completamente diversa.
O plasma do corpus de uma aparição mantém, em sua maior parte, uma forma semelhante à da carne; é a forma segundo a qual o espírito acostumou-se a reconhecer sua identidade, e é mantida através do hábito. Contudo, certas aparições aprenderam a arte de moldar seu próprio plasma — e ocasionalmente o dos outros — para assumirem a aparência que desejarem. Através dessa arte, podem disfarçar-se, e alguns conseguem até moldar objetos de plasma como se fossem de barro, atribuindo-lhes qualquer forma. Assim como todas as coisas no mundo são baseadas em alguma variedade de matéria, todas as coisas no Mundo Inferior são compostas por alguma espécie de plasma.
Partindo do fato de que somos insubstanciais, poder-se-ia supor que somos invulneráveis a influências materiais — capazes de caminhar através de paredes e outras barreiras, como narram os escritores das histórias de horror. Porém, isso é apenas parte da verdade, porque nem essa graça é concedida facilmente às pobres aparições.
Como já comentei, o plasma é mantido em sua forma pelo hábito, podendo ser alterado pela força de vontade, se o indivíduo tiver aprendido a disciplina necessária para fazer isso. A força de vontade, ao que parece, rege sobre o plasma, mas é serva da consciência. Para a mente racional, é óbvio, por exemplo, que não é possível caminhar através de uma parede de pedra; a mente carregou esse conhecimento por toda a vida, e trouxe-o ao Mundo Inferior com o resto de sua bagagem. Portanto, uma aparição pode ser inicialmente impedida por uma barreira física, a não ser que este conhecimento recordado seja suprimido pela mente e substituído pela nova sabedoria de que o plasma não pode ser bloqueado pela matéria.
Mas isso até que não é difícil: mediante um pouco de concentração, é possível superar a resistência da matéria se a mente estiver consciente da tarefa. Mais traiçoeiras, porém, são as ocasiões em que a mente for tomada de surpresa, e a parte subconsciente do espírito recorrer aos ensinamentos da vida física para orientar-se. Uma queda, um trem em alta velocidade ou um tiro são coisas súbitas, e a não ser que a mente esteja relaxada no momento em que ocorrerem, elas poderão causar danos, porque a mente acreditará nisso.
Essa, porém, não é uma regra simples — o quanto seria fácil, para um espírito torturado encontrar descanso na autodestruição, pulando da mesma ponte da qual saltou para a Morte. Embora o plasma seja vulnerável, ele não é destrutível por causas mundanas. Extinguir o espírito é muito difícil, e mais terrível em suas ramificações que um mero suicídio.
Mas como um golpe súbito pode ser sentido tão sólido quanto em vida, enquanto o toque de um ente querido — tão ardentemente desejado — é sempre negado ao pobre espírito? A pior parte de nossa existência miserável é que podemos sempre ver aqueles a quem amamos, mas jamais podemos tocá-los ou conversar com eles.
Quando conscientes, a maioria dos vivos estremece ao toque dos mortos, porque teme e desconfia das coisas que emergem do véu. A vontade precisa ser domada para aceitar a possibilidade do toque, da mesma forma que a vontade de uma aparição precisa ser domada para aceitar que uma bala é inofensiva, antes que qualquer toque seja possível. Tudo isso faz parte de nossa tortura eterna.
 

Os Grilhões das Almas

    Nem todas as almas — nem mesmo a maioria — estão aprisionadas no Mundo Inferior, e obrigadas a passar toda a existência como aparições. Nós que vagamos pelas sombras, estamos aprisionados por forças que emanam do interior de nós mesmos, forças estas que constróem as masmorras das quais observamos o mundo dos vivos.
Nós, as sombras, chamamos os laços que nos prendem à nossa condição miserável de Grilhões. Você já os conhece, caro leitor; afinal, todas as histórias de fantasmas não estão cheias de grilhões e correntes, que impedem o pobre espírito de descansar em paz? Considere o fantasma que não pode deixar seu ouro, a mãe que observa seus filhos, o espírito do assassinado que assomalgum feito sombrio — todos esses são exemplos de Grilhões.
    Os Grilhões são os cordões que prendem uma aparição à Terra Sombria e, portanto, as âncoras que impedem os sentidos de uma aparição de se dissolverem no caos da Tempestade. São os Grilhões que fazem de nós o que somos. Um Grilhão é uma âncora e também um carcereiro. Sem essa espécie de lente para concentrar a existência de um ser, o passar dos anos e a loucura fundamental à existência no Mundo Inferior corroeriam a alma, levando a aparição a perder sua identidade e existência até que — da forma como a sabedoria corrente nos ensina — a aparição, libertada dos Grilhões, seria arrancada da Terra Sombria e jogada ao coração da Tempestade. Embora a existência da aparição nas Regiões Sombrias seja torturada, ela ainda é muito preferível ao caos infernal da Tempestade.

 

Os Despojos da Vida Mortal

        Assim como uma aparição pode estar presa a certos lugares, pessoas ou objetos no mundo dos vivos, um objeto pode ser transubstanciado ao Mundo Inferior com seu dono. Esses objetos são chamados Despojos, porque eles são o resíduo dos bens dos quais a alma viva cercava-se.
Hoje em dia os Despojos não são obtidos com facilidade. Antigamente, como as crenças populares sustentavam que uma parte dos bens materiais do morto poderiam acompanhar seu espírito ao mundo seguinte, os afortunados abasteciam suas tumbas com provisões para a jornada e a nova existência que os aguardava. Já caminhei pelo convés de um navio viking queimado no fiorde de Oslo, onde nasci, e ouvi a melodia apazigüante das liras emparedadas com o lendário Ozymandias.
Nesses tempos esclarecidos, os vivos não são tão solícitos quanto seus mortos, e muitos agora atravessam a mortalha sem nada mais do que tinham ao sair do útero. Sim, é possível que um objeto querido passe com seu dono e fique a seu serviço em mais de uma existência. Quando uma coisa é usada com tanta freqüência que seu dono passe a considerá-la uma parte essencial de sua identidade, ela poderá manifestar-se em forma plásmica juntamente com seu dono.

 

O Mundo Inferior

Por onde começar? O Mundo Inferior é um lugar tão extraordinário que mesmo um grande escritor como eu (depois que você morre, não há motivos para falsa modéstia), sentiria dificuldade em descrevê-lo. E, mesmo se o conseguisse, nem mesmo a mais ágil das mentes humanas poderia conceber o inconcebível, salvo através da experiência própria. Mesmo assim, tentarei traçar um esboço pálido do Mundo Inferior.
A ciência teria nos feito acreditar que o mundo — falo agora do seu mundo, onde o sol aquece a grama verde — consiste apenas de matéria e energia, e todas as substâncias e formas a serem encontradas pertencem aos mesmos componentes, divergindo apenas em proporção e arranjo. Alguns iriam mais adiante, dizendo que a matéria é apenas uma forma de energia congelada e solidificada, que pode ser revitalizada pela divisão de seus átomos. Imagine, portanto, um mundo baseado não na energia, mas na entropia — onde apenas a negatividade governa as infinitas formas de existência. Essa, estou certo, é a forma como a ciência descreveria o Mundo Inferior.
Se é verdade que o espaço e o tempo, a matéria e a energia, podem ser reduzidas a equações e provadas matematicamente serem uma só coisa, então o Mundo Inferior certamente é o instante final do universo, que se diverte enquanto espera seu próximo compromisso, manifestando-se como um lugar, ao invés de um momento.

 

O Rio dos Mortos

Muitos especularam sobre o Rio da Morte e suas origens. Certamente, desde os primeiros tempos os rios são importantes para a humanidade. O fato que, durante seu curso, o Rio da Vida torne-se o Rio da Morte não é visto com estranheza pela maioria.
Obviamente, muitos acreditam que o Rio da Morte é o mesmo descrito nos mitos e lendas como Rio Styx. O Rio da Morte já foi chamado de Rio Styx ou Rio Lethe no passado, mas aparentemente muitos reinos das praias distantes afirmam possuir neles um “Rio Styx” ou um “Rio Lethe”.

Alguns afirmam que a própria Dama do Destino criou o rio, com suas lágrimas ou juntando alguns pingos de chuva. O fato de que o rio corra por grande parte da Tempestade torna-o um Atalho muito procurado. Os abrigos secretos ao longo do rio são excelentes esconderijos para os inimigos da Hierarquia.
 Recentemente, a Hierarquia tem patrulhado o rio, numa tentativa de expulsar os espectros, Renegados e Hereges que o tomaram.

As Regiões Sombrias

O Mundo Inferior é inconcebivelmente vasto — maior que um mundo, ele é um Anti-Universo. Tudo o que não faça parte do Universo pertence ao Limbo. Assim como a Terra é apenas uma pequena parte do Universo, existe uma pequena parte do Mundo Inferior que lhe é correspondente. As regiões deste território estranho são as abóbodas do conjunto total das aparições presas por Grilhões e são conhecidas como Regiões Sombrias.
As Regiões Sombrias, entrelaçadas com o mundo vivo e material, copiam dele a maior parte de sua forma. Talvez, neste ponto onde o Universo e o Anti-Universo convergem, cada um assume alguma coisa da natureza do outro; essas conjecturas filosóficas, contudo, pouco interessam aos que precisam permanecer aqui.
Você já ouviu falar das Regiões Sombrias, mas por outro nome. É nela onde as aparições que não podem passar livremente para o Além concentram-se com maior freqüência, e é daqui que uma aparição pode ver o mundo dos vivos, e talvez falar com os vivos, se ambos tiverem os talentos necessários.
Este é o domínio ao qual os médiuns espíritas referem-se ao falar dos Planos Etéreo ou Astral. Muitos acreditam que essa região seja todo o Mundo Inferior, mas estão enganados. Poucas almas viventes suspeitam dos reinos aterrorizantes e dos desertos que repousam além dessas fronteiras. E os poucos que suspeitam deixaram sua razão como pagamento por esse conhecimento.
O nome Regiões Sombrias é bastante adequado. Elas prolongam o mundo da carne, mimetizando-o como uma sombra imita seu dono. Salas, casas e mesmo cidades inteiras existem nas Regiões Sombrias, ocupando o mesmo espaço e dimensões que seus correlatos físicos. Embora elas não sejam cópias exatas de seus originais, são reconhecíveis. Elas são lugares tristes, desprovidos de luz, alegria e qualquer coisa que possa agradar o coração.
As criaturas como eu costumam acreditar que o Limbo suga para si as forças negativas do seu mundo vivo, mediante alguma forma de atração magnética, e, tendo feito isso, solidifica essas forças em matéria, com a qual constrói a si mesmo. Assim como a página de um livro recebe apenas a tinta e as formas das letras do clichê da prensa, as Regiões Sombrias assumem apenas o que é sombrio e esquálido no mundo vivo, mantendo um pouco de sua forma. Sombra e Substância
Embora as Regiões Sombrias margeiem os reinos dos vivos, a comunhão entre os dois mundos apenas é possível em raras ocasiões. As Almas Inquietas podem observar o mundo vivo, e até mesmo viajar por ele através das Sombras correspondentes — mas é muito difícil para um indivíduo conseguir ser visto ou ouvido, e tocar ou mover um material requer um esforço ainda maior. Como é preciso uma força de vontade fantástica para alterar materiais no mundo vivo, os esforços nessa direção costumam ser desajeitados e direcionados imperfeitamente. Muitos casos relatados de fenômenos Poltergeist não passam de aparições que foram frustradas na tentativa de desempenhar alguma tarefa simples.
Quando respirava, muitas vezes sonhei que estava me movendo através de alguma cena familiar, observando tudo mas incapaz de me comunicar com os meus amigos e entes queridos. Já vi aquele sonho repetir-se muitas vezes, mas agora durante as horas em que estou acordado. E como é horrível ver minhas lágrimas caírem através das mãos e dos rostos dos meus entes queridos, a quem tento abraçar com dedos de névoa! Com o tempo aprendi a disciplina necessária para tocar, mas o processo é árduo e doloroso. Seria mais fácil para mim, enquanto era vivo, atravessar um oceano a nado do que fazer hoje algo tão trivial quanto folhear um livro.

 

Lugares Assombrados e Nulidades
 

Contudo, existem alguns lugares onde a interação entre os dois mundos é menos árdua. Assim como os vivos são atraídos para certos lugares de seu mundo — cidades luminosas, grandes montanhas e spas da moda — também os mortos reúnem-se em determinadas áreas, que são conhecidas, em lingua-mortun, como Lugares Assombrados. Esses lugares retêm tão fortemente a substância da morte que eles começam a moldar suas contrapartes vivas ao invés de serem moldados por elas. Um local vivo que corresponda a um Lugar Assombrado é possuído por uma aura de medo e tristeza tão poderosa que as almas vivas mais sensitivas podem dizer, com total segurança, que ali trafegam aparições. Vez por outra, a Mortalha entre os Mundos é rompida em algum ponto nesses lugares, o que permite que os mortos manifestem-se ali para sentidos vivos.
Esses são os lugares assombrados que eu procurei em minha juventude, na esperança de conversar com os mortos e aprender com eles os segredos da Eternidade. Imagine o quão idiota me sinto quando hoje vejo esses lugares com olhos mortos e avisto outros tolos caçadores de fantasmas!
Se um Lugar Assombrado é um lugar onde o diafragma que separa a vida e a morte é esticado, tornando-se mais fino, então uma Nulidade é um buraquinho no véu, através do qual imagens, sons — e às vezes outras coisas — podem passar sem obstrução. As Nulidades são furos no tecido da realidade — poços ligados diretamente às profundezas da Tempestade. A Entropia é sugada através de uma Nulidade pela influência do Limbo exatamente como a água é sugada pela gravidade através do buraco de um regador de plantas. As Nulidades são as cavernas das quais nenhum explorador retorna, e a fonte das visões das profetisas. As Nulidades abundam em mistérios terríveis e eventos inexplicáveis, especialmente no que concerne a coisas que aparecem e somem. Tenha medo delas, porque são portas para os dois lados — e adentrá-las é tão ruim quanto confrontar o que delas emerge.

 

Cidadelas e Necrópoles

A forma e a configuração do mundo dos mortos não depende apenas da terra dos vivos. Na verdade, existem muitos casos em que o inverso ocorre, e um deles é a Necrópole, a cidade dos mortos. Em muitos aspectos, os mortos mantêm inalterados seus hábitos como seres vivos. Eles vivem próximos uns aos outros, procurando segurança em números e na proteção de indivíduos mais fortes. Suas vilas e cidades sobrepõem-se às cidades dos vivos em praticamente todos os casos, porque os vivos são a fonte de sua riqueza e sustento. A Necrópole mantém uma grande semelhança com a cidade mortal cujo espaço ocupa, mas também exerce sua própria influência.
Quantas vezes o caro leitor já esteve nas ruas e nos becos fétidos das regiões mais decadentes de uma cidade? E quantas vezes, nesses lugares, já sentiu — sem causa aparente — um medo profundo, como se estivesse numa capela mortuária ou numa ruína assombrada? Nesses momentos você estava adentrando as sombras que a Necrópole projeta na Terra. Nesses lugares, a presença dos mortos é quase tangível, e o mundo dos mortos molda a realidade terrestre à sua imagem e semelhança.
Quando você estiver num lugar como esse, abotoe o colarinho do casaco e siga em frente, dando graças aos céus por ter visto apenas o seu próprio lado do espelho. Pois se tivesse tido uma visão do mundo dos mortos, teria visto coisas bem piores do que mendigos ou gangues de rua: teria presenciado imagens de pesadelo e planos tão funestos que enrubesceriam os senadores da antiga Roma.
Numa Necrópole pode haver muitos Lugares Assombrados, mas todos têm em comum a semelhança das ruas de um bairro miserável. Acima de todas está a Cidadela, a acronecrópole onde reinam os Anacreontes da Hierarquia, que governam em nome dos Senhores Mortais. Esta, contudo, não é uma regra geral: umas poucas Necrópoles ostentam as bandeiras dos Renegados ou dos Hereges, mas a maioria é regida com punho de ferro pela Hierarquia. As exceções geralmente diferem apenas nas cores de suas bandeiras.

 

As Profundezas Eternas

Existe muita coisa no Mundo Inferior além das Regiões Sombrias. O oceano vasto (e ainda não mapeado) da Tempestade é cortado por continentes inteiros. Contudo, para os habitantes das Regiões Sombrias, esses são lugares misteriosos e distantes. A maior parte do que se sabe sobre eles consiste de mitos, conjecturas e superstições. Conta-se também histórias ainda mais fabulosas sobre ilhas na tempestade que empalideceriam até mesmo o Eldorado do mundo vivo. Essas histórias, provavelmente verdadeiras, inflamam os corações dos aventureiros. Contudo, as feras e costumes estranhos com os quais os exploradores do mundo vivo se deparavam eram regidas pelas leis da física e da natureza, regras que não se aplicam às descobertas que podem ser feitas por um Pizarro ou um Marco Polo do mundo dos mortos.

 

 As Praias Distantes

Este é um assunto sobre o qual não me sinto à vontade para falar. Nunca estive nesses lugares e os fatos que sobre eles me chegam parecem misturar lenda e realidade. As Praias Distantes em muito me lembram as lendas terrestres do Paraíso, porque sua natureza conjuga muita crença com poucos fatos. Contudo, como as Praias Distantes pertencem ao conhecimento geral dos mortos, eu não poderia omiti-las neste relato.
É dito que existem muitos reinos, flutuando como ilhas no oceano turbulento da Tempestade. Com o tempo eu deverei ter mais o que dizer sobre elas. Aquelas que compartilham o título de Praias Distantes merecem ser mencionadas, devido à crença generalizada de que elas sejam a Vida Depois da Morte, conforme ensinado pelas autoridades religiosas.
Aparentemente, na Tempestade se encontram todos os paraísos prometidos por cada crença humana. Ali também podem ser encontrados todos os infernos e céus, de cada raça e credo. Há quem chegue mesmo a afirmar que esses reinos são criados e sustentados pela crença das almas que os procuram — e por nenhuma outra força.
Minha mente racional aconselha-me a não confiar nesses rumores, embora eu não possa resistir à deliciosa ironia de que todas aquelas religiões humanas, que passaram séculos perseguindo umas às outras para provar que seus dogmas eram os únicos verdadeiros, estivessem erradas — simplesmente porque todas estavam certas! Pelo menos, o ensinamento "procura e achará" era um dos poucos que merecia estar certo.

 

Estígia

De todos os reinos do Mundo Inferior, o maior de todos é Estígia. Fundada, de acordo com a tradição, pelo próprio Charon, ela é o trono dos Senhores Mortais, e seu poder avulta-se sobre o mundo dos mortos como a antiga Roma fez um dia com a Europa.
Os Atalhos mais numerosos e seguros através da Tempestade são aqueles que conduzem o viajante aos portais de Estígia, porque eles são mais trafegados e melhor conservados.
Cercando o Reino de Estígia está o Mar das Almas, um miasma vasto e terrível que rivaliza com as visões de pesadelo de Bosch. Afinal, ele é realmente um mar de almas — uma visão horrível e patética, mas uma sólida defesa contra a Tempestade. Para além do Mar das Almas estão as muralhas de Estígia, que ninguém atravessa voluntariamente.
Como tudo na cidade, desde o desaparecimento de Charon, o posto avançado não serve mais ao seu propósito original, tendo sido transformado numa prisão. Os Senhores Mortais mantêm várias almas cativas, cuja presença sustenta e fortalece o reino, e alimenta o poder e a ambição de seus detestáveis carcereiros.
Isso é tudo quanto se sabe sobre Estígia e, da minha parte, tudo que quero saber. Dizem que não há esperança para aqueles que passam pelos seus portões, a não ser que ocupem níveis elevados na Hierarquia. Apenas os Barqueiros entram imunemente em Estígia, e mesmo eles são cautelosos.

 

As Legiões dos Condenados

A menção dos Barqueiros fez-me perceber que até agora ofereci apenas explicações pessoais e subjetivas sobre a vida depois da morte, não chegando nem mesmo a falar sobre as concepções predominantes entre meus amigos incorpóreos sobre o como e o porque de nossa condição.

 

Aqueles que Guiam

A cultura dos mortos enfatiza o respeito para com aqueles que são chamados Barqueiros, porque eles possuem a capacidade de conduzir em segurança as almas dos falecidos, contornando as inúmeras Tempestades do Mundo Inferior e evitando os traficantes de escravos e de outros seres sobre os quais ainda escreverei.
Você já conhece seus nomes: Anúbis, Hermes, Brunhilda e suas irmãs — e muitos outros, cujos nomes são desconhecidos pela maioria das pessoas, salvo estudiosos vivos e sacerdotes mortos. Dizem que Charon, que criou a Hierarquia e impôs ordem à Tempestade, foi o maior dos Barqueiros de sua época. Porém, agora parece que Charon está desaparecido, e sua ordem começa a ruir. Se isso for verdade, o futuro que nos aguarda é muito negro.
Os Barqueiros viajam através do Mundo Inferior sem que ninguém impeça sua passagem. É dito que as jornadas dos Barqueiros contribuem para a manutenção dos Atalhos, como o tráfego freqüente nas rodovias Terrestres impede que o asfalto seja coberto por mato. Eles não têm nenhum mestre além de si mesmos, o que é raríssimo entre os mortos e lhes concede grande poder. Eles são temidos e até mesmo odiados — as almas que eles conduzem estão fora do alcance dos traficantes de escravos — embora seu poder os proteja de qualquer um que se oponha contra eles. Mediante um preço, qualquer alma pode viajar com um barqueiro, mas esses condutores realizam o trajeto que lhes apetecer, podendo navegar em círculos por anos ou séculos, e até não chegar ao destino desejado pelo passageiro.

 

Os Regentes

Há algumas eras, como reza a tradição, o grande Charon fundou o reino de Estígia, que é o maior dos reinos do Mundo Inferior. Como um império terrestre, sua influência se estende para além de suas fronteiras, e sua Hierarquia regente é um poder contra o qual ninguém ousa manifestar-se. Os Senhores Mortais são fiéis a Charon, mas desde seu desaparecimento é impossível saber o que eles podem fazer. Nos últimos tempos, suas legiões têm estado mais ativas e ousadas.
Como qualquer império da História mortal, a Hierarquia governa mais pelo medo que pela persuasão amistosa, sendo baseada não em filosofias ou princípios morais, mas nos lucros dos espólios das guerras. Os vassalos da Hierarquia são traficantes de almas, mas punem aqueles que os imitam. Eles governam e negam aos outros o direito de governar a si mesmos, chamando os descontentes de "Renegados" e "Hereges". A Hierarquia é a inimiga de toda a liberdade.
Isso é tudo que sei. Ouvi muitas outras coisas, mas eram apenas rumores e conjecturas. Não o pertubarei, caro leitor, com histórias pouco confiáveis, agora que cumpri meu propósito principal, que era descrever a Hierarquia. Em suma, todos os amantes da liberdade devem temer e evitar os Senhores Mortais e seus lacaios, porque, embora eles ofereçam proteção contra muitos perigos do Mundo Inferior, eles mesmos constituem uma das maiores ameaças no mundo dos mortos.

 

Aqueles que se Rebelam

Muitos acusam os Senhores Mortais de terem afastado ou eliminado seu mestre Charon para terem maior liberdade em sua busca pelo poder. Quando Charon desapareceu, muitos se separaram da Hierarquia. E outros, que nunca tinham se submetido às regras da Hierarquia, encontraram nisso a oportunidade de voltar essa cisma para sua própria vantagem, juntando-se ao grande levante contra Estígia que ocorreu há alguns anos. Desde que os gregos revoltaram-se contra os turcos que eu não via tantas cenas de coragem, sacrifício e traição. Foi uma guerra terrível, da qual por muito pouco escapei ileso.
Os Renegados, como eles se autodenominavam, foram esmagados pelas Legiões, mas não foram completamente destruídos. Desde então, quando em algum tempo e lugar surgem fagulhas de rebelião, os rebeldes adotam a alcunha "Renegados". Eles são poucos, mal organizados e extremamente antagônicos. Sob a bandeira dos Renegados, os bandidos unem-se aos sonhadores, e os loucos aos revolucionários.

 

Aqueles que Anseiam

Já mencionei a crença comum de que as Praias Distantes, se é que elas existem, são compostas de fé pura, tornada tangível poela natureza do Mundo Inferior e pela quantidade de almas devotadas à idéia de sua realidade. Os Hereges procuram empregar esta lei peculiar de seu mundo criando uma crença e mutrindo-a até que ela cresça a ponto de se tornar um reino estável. Uma operação como essa é muito onerosa. Os crentes-fundadores precisam ser puros e fiéis para que o resultado tenha alguma estabilidade.
Alguns desses Hereges manifestam suas crenças devido a uma simpatia natural, outros porque temem as alternativas: vagar eternamente pelas Regiões Sombrias, sob as ordens dos Senhores Mortais, ou uma jornada através da Tempestade e em direção a um refúgio inexistente.
A experiência me ensinou que os Hereges são anfitriões mais confiáveis e melhores aliados que a Hierarquia ou os Renegados. Depois que você tiver se informado sobre a natureza e os dogmas da crença de um grupo de Hereges, será possível confiar com segurança em seu comportamento, porque o zelo e o pragmatismo os impelem a uma observação fiel de suas próprias regras.
Como os Renegados, os Hereges são tratados sem piedade pela Hierarquia. Corre o boato de que um simples laço de amizade com os Hereges pode ser suficiente para se sofrer a descorporação pelas mãos da Hierarquia.

 

Aqueles que Aprendem

Apesar de todo o poder da Hierarquia, existem, entre os mortos, outros elos sociais que igualizam os indivíduos. Embora as Guildas Estígias não sejam o que foram um dia, aqueles a quem elas abrem suas portas podem ter alguma influência. A Habilidade é a única qualificação, e não riqueza, posição ou aliados. Que mundo admirável poderia ser erigido entre os vivos, se todo o conhecimento das Guildas pudesse ser compartilhado com os que ainda não morreram!
As Guildas já constituíram um dos maiores poderes do Mundo Inferior. Formadas por Charon para ajudar a organizar as aparições no caos dos primeiros dias, apenas elas poderiam discutir em posição de igualdade com a Hierarquia, porque elas tinham o maior poder — o do conhecimento, e até mesmo o tirano mais impiedoso precisa ajoelhar-se diante dos sábios. Mas esses dias ficaram no passado. Hoje, as guildas são apenas reflexos de seu antigo poderio. Elas não são mais organizações formais, mas simples afiliações casuais de almas gêmeas, unidas por uma identidade comum.
Como entre os vivos, também entre os mortos existem caçadores da verdade e decifradores de segredos — são essas as mentes que compoem as guildas. Cada uma guarda, ensina e constrói a partir de sua visão do que é Cieência no mundo dos mortos. Em algumas Cidadelas esclarecidas, aqueles qiue ainda se autodenominam mestres da guilda sentam-se ao lado de Anacreontes para oferecer sua sabedoria ao governo. Em outros lugares, os tiranos os odeiam. Aqueles que não escondem sua afiliação a uma guilda precisam temer, porque a ira que pode se abater sobre eles é terrível. A utopia dos reis filósofos se encontra tão distante do meu mundo quanto está do seu, e o conhecimento das guildas foi roubado. As guildas agora são, por necessidade, escondidas e secretas, e seus membros não se declaram abertamente. Como Timaeus aos joelhos de Plato, aprendi essas coisas com as aparições da guilda que me apoiaram quando esta existência tornou-se insuportável. Entre eles encontrei grande simpatia por minhas próprias inclinações. Para aqueles que anseiam por filosofia, razão ou justiça, os lugares assombrados da guilda são paraísos no mundo dos mortos. Sua disciplina é menos indulgente que aquela à qual fui submetidfo em Cambridge, mas os assuntos que eles ensinam são infinitamente mais valiosos. E mais de uma vez eles ofereceram abrigo contra aqueles que haviam me feito mal — e um abrigo é algo que nunca deve ser desprezado.

 

De Natura Animorum

Para os vivos, uma alma é uma coisa tão intangível cujo preço costuma ser barato e cuja própria existênca é freqüentemente debatida nesta Era da Ciência. Apenas depois da morte os verdadeiros valores da alma ficam aparentes, porque, no mundo das aparições, as almas são matéria-prima e moeda corrente. A estabilidade e a força do reino dependem, em sua maior parte, da quantidade e da personalidade das almas que reinam ali, e o poder de um indivíduo, como na Terra, é medido pelo número de almas sob o seu comando.
Os cidadãos mais poderosos deste lugar podem derretar as almas como se fossem cobre e zinco, e moldando-as em objetos de algum poder. O ferro estígio — que muitos afirmam ser feito através desse processo repulsivo — é a única substância que pode unir o plasma mutável do corpus de uma aparição, sendo altamente valorizado pelos traficantes de escravos.
As pobres almas reunidas em ligas ficam unidas em sua nova forma, e sua centelha vital concede ao objeto a capacidade de realizar seu propósito. Os Senhores Mortais freqüentemente soam grandes gongos forjados a partir de mulhares de almas. O som desses gongos é aterrorizante.
Assim como os vivos fazem suas moradas próximas às coisas das quais podem extrair algum valor — minas, plantações, áreas de pesca, rotas de comércio — também os mortos habitam perto dos lugares onde as almas costumam cruzar a divisa que separa vida e morte. Os hospitais e cemitérios são como celeiros para eles, e mesmo os vivos podem sentir sua presença ali.
Ainda mais procurados são os locais de execução, os becos escuros onde são cometidos assassinatos, as fábricas e minas ameaçadas por desastres e muitos outros lugares onde a morte costuma ser violenta e implacável. Aqui, os Ceifadores — assim eles se autodenominam — exercem cada átomo de sua influência, como vaqueiros tocando o equilíbrio terrestre na direção de catástrofes para poderem usufruir do lucro resultante.
As guerras e os massacres constituem grandes atrações, ainda que efêmeras. Grandes caravanas espreitam das Regiões Sombrias os exércitos vivos, comportando-se como uma torcida de futebol enquanto antecipam o massacre. As carnificinas são seguidas por grandes celebrações e banquetes de almas, como as festividades dos faroeses durante a chegada das baleiais migratórias. É uma comemoração macabra.
Caso alguma catástrofe súbita ocorra, a notícia se espalha como se tivesse sido descoberto um veio de outro. Um enorme número de almas disputa o prêmio, e quem chegar por último é mulher do padre. Isto, contudo, acontece apenas raramente, porque os ceifadores de almas mantêm uma vigília atenta sobre os vivos, e os desastres são antecipados quase sem exceção. Na verdade, muitas catástrofes são planejadas e provocadas, de forma muito semelhante a como os índios americanos tocavam os búfalos para penhascos e depois se banqueteavam.
Admito que pintei um retrato chocante. Apenas o meu amor profundo pela verdade poderia me fazer passar-lhe uma visão tão distópica, caro leitor.

 

Servidão e Liberdade

A escravidão é o destino inevitável da maioria das almas que entram no Mundo Inferior. Desorientadas depois do toque da morte — muitas ainda não compreenderam sua verdadeira situação — elas são assediadas por aqueles que as aguardavam. Apesar de ser uma condição detestável para qualquer ser humano, no Mundo Inferior, muitas vezes a escravidão pode ser preferível à liberdade.
Segundo uma tradição antiga, a aparição que rasga o Redenho plásmico de uma alama recém-chegada clama o direito de condução e é dignificada com o título de Ceiffador. Meio mestre, meio padrinho, o ceifador precisa guardar cuidadosamente sua nova propriedade. Não apenas os ladrões precisam ser rechaçados, como também a aparição recém-descoberta precisa ser mantida em boas condições para ser mantido ou aumentado seu valor comercial. O Ceifador nada lucra com maus tratos...
A Liberdade, em comparação, é cheia de terrores. Uma aparição fraca e ignorante é presa fácil num mundo de predadores. Qualquer aparição que se encontre é um escravagista potencial. Apenas mediante muita astúcia e uma força sobrehumana que a liberdade pode ser mantida. Embora o escravizado possa sonhar com liberdade, ele não tem motivos para invejar uma alma livre.
Contudo, ser escravizado — seja no mundo dos vivos ou dos mortos — é nutrir uma certa esperança de liberdade. Os indivíduos escravizados procuram a liberdade na ascenção de postos, aspirando um cargo superior, como Anacreonte ou Senhor Mortal. Outros, da mesma forma, procuram melhorar sua situação. Poucos procuram escapar — escapar é renunciar a toda proteção e mergulhar num mundo de perigos insondáveis.
As almas colhidas por Renegados sofrem menos em seu confinamento. Como os pensadores racionais e humanistas da época em que vivi (cujas almas fundaram muitos grupos), os Renegados pregam grande respeito pelo indivíduo, colocando o benefício mútuo e a cooperação voluntária acima dos mandamentos da força bruta. Sua devoção à prática de sua filosofia é, como em vida, um pouco variável; mas aos recém-descobertos são concedidos alguns direitos pessoais, motivo pelo qual suas existências são bem melhores que a dos escravizados.
Como ocorre com as aparições amparadas pelos Hereges, sua condição depende principalmente de suas inclinações. Aqueles que se disporem, por filosofia ou interesse, a acreditar e servir a fé de seus captores, poderão prosperar. Aqueles que não quiserem sujeitar-se aos seus mandamentos poderão ser negociados com outros mestres e terão um destino incerto.

 

Transcendência

Agora que eu desenhei os horrores do Mundo Inferior em cores vivas e terríveis, não preciso lembrá-lo, leitor, que a principal preocupação da maioria das Almas Inquietas é escapar de sua maldição. Essa possibilidade é o que ilumina esta existência abominável e é desejada tão fercorosamente quanto o desejo pela graça celestial. Essa salvação é procurada por várias filosofias, embora seu nome comum seja Transcendência — uma palavra que materializa tudo é iluminado, esperançoso e inspirador neste lugar horrível.
Em parte, a Transcendência é a libertação dos Grilhões que prendem a alma ao mundo dos vivos, e conseqüentemente, às Regiões Sombrias. Da mesma forma que nenhuma alma liberta dos Grilhões pode ser mantida prisioneira aqui, nenhuma com Grilhões tem qualquer esperança de fuga.
Mas a Transcendência é mais complexa do que simplesmente desatar os elos que prendem uma alma à Vida. Na verdade, apenas destruir os Grilhões é uma garantia de destruição. Livre de sua âncora uma alma liberta dos Grilhões pode ser sugada pela loucura da Tempestade, para li perecer ou sofrer um destino pior. Antes de Transcendência ser alcançada, o espírito precisa estar em paz consigo mesmo e possuir uma tranqüilidade interna que o manterá a salvo durante a jornada para a Transcendência.
A escuridão interior da Sombra precisa ser confrontada, abraçada e harmonizada com paixões mais nobres; topdos os conflitos e dores precisam ser suavizados, deixando a alma tranqüila; os arrependimentos e sonhos precisam ser expurgados dos espíritos — em suma, cada átomo de sentimento ruim e negatividade precisa ser purificado, o que impedirá o Limbo de sugar sua esperança.
A Transcendência é uma jornada espiritual, mas também uma jornada no sentido exato da palavra — se é que qualquer coisa ou lugar neste mundo tão fantástico pode seguir ao pé da letra o sentido da palavra que o denomina, e nem um pouco menos arriscada que as perigrinações de outrora, através de florestas selvagens, desertos hostis e os grandes santuários da Terra Sagrada.
Por tudo isso, eu presenciei a Transcendência de apenas uma pessoa a quem poderia chamar amigo, e com lágrimas de alegria orei para poder seguir o mesmo curso. Eu ainda nutro a esperança de alcançar esse estado abençoado a tempo, desta forma dando fim ao meu sofrimento neste mundo. Conheci aparições que negam ou rejeitam a esperança da Transcendência, e se prendem ao Mundo Inferior como sua única realidade — e espero sinceramente jamais descer à condição deles. Que o Céu nos ajude a todos.

 

Palavras de Despedida

        Está consumado. Escrevi, da melhor forma que pude, sobre esses assuntos sobrenaturais. Se você lhe der a devida atenção, este texto poderá um dia salvá-lo de todas as espécies de horrores. Rezo para que isso aconteça.
        As coisas registradas aqui podem parecer fantásticas demais para receberem crédito, e você talvez fique inclinado a atribuí-las à loucura de um demente ou aos pesadelos induzidos pelo ópio. Mesmo eu, que quando habitei a carne, dediquei minha vida à solução dos mistérios da morte, sentiria dificuldade em acreditar na maioria do que está escrito nestas folhas.
        Contudo, neste texto há muitas coisas que não lhe parecerão estranhas se você estudá-las com outros olhos. Compare este texto com as narrativas de fantasmas e as lendas de sua terra natal e encontrará semelhanças. Como poderias ser de outro modo, considerando que todas essas histórias estão enraizadas na mesma realidade? Deixe que essas histórias sejam minhas testemunhas, garantindo a veracidade do resto da obra. Tens a minha palavra de que presenciei tudo quanto relatei.
        Há mais uma coisa que gostaria de contar. Talvez nós até venhamos a nos encontrar, no Mundo Inferior. Contudo, não lhe desejo a mesma sorte que eu. Se quiser agradar-me, trate bem as almas boas e piedosas que cruzarem seu caminho — se uma dessas não houvesse me amparado, você teria permanecido ignorante, e estaria fadado a entrar completamente despreparado no Mundo Inferior, como aconteceu comigo.

A Tempestade

Prefácio do Livro Wraith: The Oblivion 2nd Edition
Extraido da antiga frenesi home page